Você se hospedaria em um lugar como este?
Hospedagem caseira ao natural

Daniel Ruf e Patrick Palme, dois estudantes com orçamento reduzido vindos de Hannover, na Alemanha, nessa primavera dirigiram através dos Estados Unidos sem pagar quase nada por suas acomodações. Durante a viagem, eles pernoitaram em 20 cidades, nas casas de pessoas que conheceram via CouchSurfing, site social cujos membros disponibilizam suas casas para viajantes, sem custos.
Mas, depois de enviar dúzias de pedidos aos nova-iorquinos, a única resposta que eles tiveram foi de Robert Redmond, funcionário aposentado do departamento de parques de Nova York de 48 anos de idade, cujo perfil o mostrava entrando nu em um caiaque no rio Delaware.
Redmond, como se provou, era membro do grupo Clothing Optional ('Roupas são opcionais’ em tradução livre) do site, e é nudista desde os 23 anos, quando nadou sem pela primeira vez no Lago Michigan. No último ano, ele tem recebido viajantes em seu apartamento de três quartos em Manhattan, na maioria das vezes usando apenas um relógio Swiss Army e um par de sandálias surradas.
“Mas sempre visto calção se meus convidados se sentirem desconfortáveis”, disse ele recentemente, enquanto servia bagels e salmão curado para Ruf e Palme, que estavam completamente vestidos mas aparentavam estarem perfeitamente tranquilos com Redmond, que nada estava usando.
“A casa é do Bob”, disse Palme, de 20 anos. “Ele pode fazer o que bem entender”. Ruf, de 21 anos, acrescentou: “Nós apenas estamos felizes de termos um lugar para ficar”.
Ao mesmo tempo que o número de inscrições no CouchSurfing, comunidade global existente há sete anos, aumentou de aproximadamente 4 mil em 2004 para os 2,8 milhões de hoje, aumentou também o número de seus grupos online, pelos quais seus membros compartilham interesses. Existem agora mais de 36 mil grupos, incluindo categorias simples e diretas como 'pianistas’ e 'libertários’ e mais existenciais como 'o que eu estou fazendo com a minha vida?'.
Aqueles que procuram por um ambiente amigável para nudistas possuem uma variedade de grupos para escolher – não apenas o Clothing Optional, mas também Naked at Home ('Nu em casa’), Freedom for Nudity ('Liberdade à nudez’), Nudist Lifestyle ('Estilo de vida nudista’) e nakedveganpotsmokingcyclists ('ciclistas vegan fumadores de maconha nus’), entre outros. Ao designarem seus lares como sendo locais amigos dos nudistas, os membros desses grupos fornecem aos viajantes refúgios temporários livres da tirania dos tecidos e das leis sobre nudez pública.
Mais importante, talvez, do ponto de vista dos anfitriões, eles estão levando a intimidade do 'surf de sofá’ ao extremo, trazendo a essência não guardada dos campos de nudismo para dentro de seus lares.
Mais de 1.100 pessoas pertencem ao Clothing Optional, que é exatamente o que diz o nome: pessoas que podem ou não escolher a nudez, mas são abertas à opção. A meta do grupo é não servir exclusivamente a nudistas mas, nas palavras da missão do CouchSurfing, “criar experiências inspiradoras”. Para os anfitriões e membros do Clothing Optional, isso significa que ter a mente aberta é tão importante quanto ficar despido.

Damon Winter/The New York Times
Yves Bournival, nudista e editor de vídeos aposentado de 56 anos em Vancouver, no Canadá, tem hospedado viajantes por mais de dez anos por meio de organizações como o Hospitality Club, precursor do CouchSurfing fundado em 2000. Desde que se juntou ao CouchSurfing em 2009, Bournival diz que quase todos os seus convidados, nudistas ou não, tiraram suas roupas logo depois de chegarem a seu apartamento.
“Quando eles percebem como estou confortável, nu”, escreveu ele em um e-mail, “meu palpite é de que eles confiam em mim e também querem ter essa experiência”.
Mas enquanto a maioria dos convidados de Bournival relutam em seguir seus preceitos fora de sua casa (numa das aulas nudistas de ioga de Vancouver, por exemplo), aqueles que ficam com Darius Zubrickas, designer de interiores de São Francisco, às vezes preferem ficar nus em cenários mais comunitários.
“Nós hospedamos um casal alemão e um casal britânico que não ficaram nus dentro do apartamento”, diz Zubrickas, conversando sem roupas pelo Skype.
“Porém, me acompanharam às praias de nudismo e lá eles tiraram as roupas”.
Zubrickas, 43 anos, hospedou aproximadamente 50 membros do CouchSurfing no apartamento-estúdio que ele divide com seu parceiro de 18 anos. (“Ele não era nudista quando nos conhecemos”, diz Zubrickas. “Mas agora é”.) No seu perfil, Zubrickas escreveu: “Este é um lar nudista” e, para evitar mal-entendidos, ele lembra a quem pede para se hospedar com ele para que leiam o perfil completo.
Stephanie Muise, assitente social de 37 anos em Toronto, lembra-se dos olhares incrédulos que recebeu de integrante alemão do CouchSurfing quando, no meio de sua estadia, ele a viu trabalhando em seu laptop sem roupas.
“Perguntei se ele havia lido meu perfil, e ele disse 'sim’, mas ele pensou que eu estava brincando sobre a parte que falava sobre o nudismo”, diz Muise.
A foto do perfil dela, observa, a mostra nua debaixo d’água. “Fiquei pensando: 'Por que eu iria brincar com uma coisa dessas?”' Sendo mulher, Muise é minoria entre os anfitriões do Clothing Optional. “As mulheres precisam ter mais consciência sobre a segurança”, diz ela, apontando um incidente em 2009 no qual um homem britânico foi acusado de estuprar uma mulher que conheceu via CouchSurfing. “Você não ouve falar sobre homens sendo sexualmente agredidos no CouchSurfing”.
Enquanto seus companheiros de hábito masculinos frequentemente cumprimentam seus convidados já nus, ela geralmente usa um sarongue até que sinta-se confortável o suficiente para ficar nua na presença de seus surfistas de sofá. E vários entre seus convidados masculinos – tanto nudistas quando “têxteis”, sua palavra para as pessoas que usam roupas – já interpretaram erroneamente sua decisão de ficar nua em seu apartamento. (Um apartamento de um quarto em um prédio de cooperativa de 16 andares, que tem dois sofás, uma cama de montar militar e um colchão de ar queen-size que, na última véspera de ano novo, acomodou quatro cansados 'surfistas de sofá’.) “As pessoas frequentemente pensam que é uma coisa sexual”, diz Muise. “Na verdade, é uma coisa de estilo de vida. A sociedade está me confinando quando me obriga a usar roupas para ir trabalhar. Então quando eu chego ao meu lar, tiro meus sapatos, alimento meus gatos e fico sem roupas, porque é assim que me sinto mais confortável”.
Para alguns, esse é um conceito difícil de engolir. Como coloca Barbara Hadley, 56 anos, chefe de relações públicas para a Federação Naturista Internacional: “Quando você pensa sobre os não-nudistas, eles tiram suas roupas apenas para o médico, para tomar banho e para o sexo. Assim, se você não está no médico ou tomando um banho, então obviamente...” Muise, que se identifica como naturista, alguém que pratica o nudismo na natureza, diz acreditar que a palavra 'nudista’ tenha uma “conotação sexual negativa”. Ao contrário de muitos do anfitriões do Clothing Optional, ela não revela sua orientação sexual em seu perfil. “O 'CouchSurfing’ não é um site de encontros”, diz ela, “Então por que deveria importar se sou homo ou heterossexual?” Realmente, todos os novos membros devem concordar em não usar o site para propósitos de encontros amorosos. “Inevitavelmente, algumas pessoas podem acabar se envolvendo, como resultado de terem se conhecido pelo site”, diz Daniel Hoffer, um dos fundadores do CouchSurfing. “Mas essa não é a missão da organização”.
Hoffer não havia ouvido falar do Clothing Optional, mas “existem tantos grupos malucos no CouchSurfing que não fico surpreso que ele exista”, diz ele. “Está inteiramente dentro de nossa missão social de permitir e apoiar grupos que façam seus membros desafiar suposições e aprender sobre outros estilos de vida”.
Amelia Borntrager, 44 anos, anfitriã do Clothing Optional e gerente de uma companhia de paisagismo em Chandler, no Arizona, diz que teve algumas de melhores conversas de sua vida com os nudistas do site.
“Quando você se livra de todas as suas roupas, é um momento tão cru”, diz ela. “Existe alguma coisa sobre o estado natural do ser que faz com que você queira se abrir emocionalmente”. Ela diz que os homens que fazem parte do site, particularmente, tendem a manter excelente contato com os olhos, por medo de que seu olhar seja atraído por outras coisas.
Borntrager tem dois companheiros que dividem a casa de três quartos com ela – amigos que não ficam perturbados pelos desnudos 'surfistas de sofá’, porque Borntrager também os converteu ao nudismo. Mas e sobre os companheiros de moradia não nudistas dos anfitriões do Clothing Optional? Como eles se sentem dividindo sua casa com um elenco rotativo de pessoas sem roupas? Javier Sanchez, de 29 anos, tem ocupado um pequeno quarto no apartamento de Redmond desde abril. Em sua última moradia, seu companheiro “não deixava ninguém dormir na casa”, ele conta. “Então, obviamente, morar com Bob tem sido uma enorme mudança”.
Para melhor? “Oh, definitivamente”, diz. “Antes de o conhecerem, meus amigos agem como, 'Você está morando com um nudista?' Mas agora eles ficam, 'Você tem o companheiro de moradia mais legal que existe!' Todos querem voltar e passar tempo com ele”.
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